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A cura não depende apenas
de remédios, mas também da relação harmônica entre o indivíduo e o mundo que
cerca.
Com
o medicamento antroposófico o indivíduo pode resgatar a memória do processo
essencial do funcionamento do seu organismo
O
processo evolutivo do ser humano pode ser analisado por meio de seu
comportamento e muitas de suas ações cotidianas têm como fundamento a imitação.
De acordo com psicanalista suíço Carl Jung, essas tendências herdadas e
armazenadas no inconsciente coletivo são denominadas
arquétipos. Elas são responsáveis por fazer com que o indivíduo se comporte
de modo semelhante de seus ancestrais, que enfrentaram situações similares às
do presente momento1.
A
experiência do arquétipo normalmente se concretiza na forma de emoções
associadas a acontecimentos importantes da vida. A antroposofia complementa
esta teoria ao afirmar que os arquétipos seriam particularidades internas
correspondentes a modelos já existentes de processos fisiológicos, emocionais e
espirituais2. Eles estruturam o ser humano em sua individualidade e
inter-relações sociais, culturais, biológicas e históricas, processo que compõe
em parte sua biografia.
Tal
configuração se deve ao desenvolvimento do pensamento, que, ao partir do
raciocínio lógico e subjetivo, pode alcançar a essência arquetípica dos
processos naturais e participar do processo de cura do indivíduo. O médico
Wesley Moraes afirma que para entender o pensamento
antroposófico, é necessário compreender sua criação e suas forças curativas3.
Macrocosmos
e microcosmos
Assim
como o arquétipo constitui uma linguagem na representação humana, o logos
(referência grega para a criação) é a força criadora do universo4.
Ele é responsável pelo bom funcionamento do universo, pois organiza os
arquétipos e se estrutura como a inteligência capaz da criação. Quando um
indivíduo adoece, é como se sua energia criativa entrasse em desarmonia5.
Seu logos não consegue mais organizar seus arquétipos, e consequentemente suas
funções e reações, mesmo dentro do indivíduo. Um estado de caos se instala e
gera um desequilíbrio frente às circunstâncias enfrentadas na vida.
É
a partir desse momento que o conceito de medicamento antroposófico atua com um
olhar diferente do modo tradicional. Tal metodologia não apenas terá reflexos
no estado físico, mas na totalidade do organismo. O medicamento seria então uma
espécie de “gravação” viva da essência da criação. Durante sua ingestão, o
indivíduo pode resgatar a memória do processo essencial de seu funcionamento
antes do desequilíbrio se instalar, o que funciona como um “logos artificial”.
Tratamento
integral
Da
mesma forma que o ser humano é considerado como um macrocosmo e possui diversos
microcosmos dentro dele, esses possíveis medicamentos possuem a mesma
constituição e trazem ordem para o caos3. Tudo pode ser utilizado
como um medicamento, desde minerais, plantas e aromas até sons e cores.
Um medicamento antroposófico pode atuar de três modos
diferentes no ser humano6:
-
Estimular o processo contrário à doença, como ocorre no tratamento alopático de
indicação. Combate-se uma inflamação com plantas anti-inflamatórias;
-
Agir de modo igual à doença para provocar uma reação contrária em direção ao
equilíbrio;
-
Buscar a atividade normal do órgão ou sistema afetado por meio do “logos
artificial”.
Na
visão antroposófica, um medicamento é sempre a reafirmação da unidade entre os
processos arquetípicos humanos e mundanos. Dessa forma, a vida não é apenas biológica,
mas sim social e cultural e essa dimensão não pode ser separada do indivíduo.
O
processo de existência do indivíduo então pode ser entendido então como a
articulação de um conjunto de esferas7 que integram
necessidades sociais, condições de vida e o trabalho humano, que
juntamente com sua biografia cria a possibilidade de intervenção
em sua própria natureza. Uma construção humana social corresponsável possibilita
ao indivíduo superar seus limites e criar sua própria trajetória.
Referências
1. BURKHARD, G.
Tomar a vida nas próprias mãos:
como trabalhar na própria biografia o conhecimento das leis gerais do
desenvolvimento humano. São Paulo: Antroposófica, 2000.
2. CAPONI, S. et al.
Medicalização da vida: ética, saúde pública e
indústria farmacêutica. Palhoça: Unisul, 2010.
3. MORAES, W. A.
Medicina antroposófica: um paradigma para o século
XXI. São Paulo: Associação Brasileira de Medicina Antroposófica, 2007.
4. SCHLEIER, R.; GARDIN, N.
Medicamentos antroposóficos: vademecum.
São Paulo: João de Barro, 2009.
5. SILVEIRA, N.
Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1997.
6. STEINER, R.
A fisiologia oculta. São Paulo: Antroposófica, 1995.
7. ALL ABOUT PHILOSOPHY.
Platão, filósofo grego. Disponível em:
http://www.allaboutphilosophy.org/portuguese/platao-filosofo-grego.htm.
Acesso em: 26 nov. 2013.